A nobre arte….

A nobre arte….

A nobre arte, aos poucos você vai percebendo porque é chamada assim. Loic Wacquant, no seu livro “Corpo e Alma” apresenta esse campo de maneira etnográfica e diretamente de um “GYM” na periferia de Chicago vai misturando observação e experimentação, campo e transformação, transcrevendo através de sua escrita o processo de produção não apenas do corpo do boxeador, mas também de seu espírito, de um aparelho sensório-motor modificado por práticas cotidianas minuciosas, invisíveis, contínuas, ao mesmo tempo individuais e coletivas, cujos efeitos são imperceptíveis a olho nu, “esta natureza particular que resulta do longo processo de inculcação do habitus pugilístico” (p.119).

É na prática disciplinar da academia que o corpo vai se “remodelando”. Uma luta diária, muitas vezes solitária, porém extremamente coletiva, que se busca a tão esperada luta do dia. É dentro desse espaço que se dá a remodelação e a culturalização do corpo. Modeladoras ou remodeladoras, as práticas diária dos treinos dentro da academia possibilitam uma “conversão perceptual, emocional e mental que se efetua sobre um modo prático e coletivo, sobre a base de uma pedagogia implícita e mimética […] que pacientemente redefine um a um todos os parâmetros da existência do boxeador”. De todo modo, o “Gym”, a academia, espaço liminar, “antídoto da rua” (p.275), é essa “usina”, esse local “onde se fabricam estas mecânicas de alta precisão que são os boxeadores” (p.273).

Uma das reflexões de Wacquant não pode passar despercebido para quem pratica o boxe. Para ele, a produção do boxeador para o “mais individual dos esportes” só é possível através de práticas coletivas, ou seja, esse é “o paradoxo de um esporte ultra-individual cuja aprendizagem é completamente coletiva” (p.120). De modo que, ao menos no vocabulário utilizado e nos referenciais teóricos, em diversas passagens, coletivo e individual permanecem em estado de mistura, mas como entidades distintas. O “gym”, a academia, continua essencializado, assim como o corpo sobre o qual ele trabalha, funcionando como “comunidade moral”, como “sistema de crenças e de práticas” ao modo de Durkheim, conforme citação do próprio autor (p.120). Talvez seja essa a explicação da sociologia quando Mestre Francisco, técnico e professor de boxe da academia CHUTEBOXE de Balneário Camboriú diariamente ecoa em suas aulas a palavra família. Deve ser por isso que um dia de luta oficial como na 4 etapa do campeonato catarinense de boxe, sábado, 07/06/2014, foi um momento importante para os que esperaram sozinhos mas se prepararam juntos a tantos outros do grupo.

Com certeza espero fazer mais imagens dessa “nobre arte”, o boxe.

ps: o resultado oficial do dia pode ser acessado em: http://www.fecaboxe.com.br/activities/4-etapa-balneario-camboriu-2014/

WACQUANT, Loïc. 2002. Corpo e Alma ­ Notas Etnográficas de um Aprendiz de Boxe. Rio de Janeiro: Relume Dumará. 294 pp.

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